segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A poção da eternidade

Um tema lindo, proposto por uma pessoa linda: Li, do blog Parfums et Poésie, para a mesa de setembro, da nossa "confraria".
Imagine você, numa expedição ao interior das pirâmides do Egito, deparando-se com um frasco de perfume até então oculto, por todos esses incontáveis anos, em um nicho escavado na parede...
Como seria seu frasco? E o mais instigante: seu cheiro? Ahhh... só de imaginar, crio um perfume surreal, poderoso e nunca antes sentido...
Pesquisas recentes encontraram num frasco metálico vestígios do que teria sido o perfume da rainha Hatshepsut (c. 1473 a 1458 a.C.). Isso os levou a imaginar qual seria o perfume usado pelos egípcios. O incenso está entre os aromas mais prováveis, considerado o perfume dos deuses. Além disso, acredita-se que frutas, ervas e madeiras aromáticas eram imersos em óleo até que este ficasse saturado de fragrância.
Mas vamos além, já que a proposta é imaginar...
Imagino um perfume que tenha sido criado especialmente para imortalizar alguém e que, necessariamente, tratar-se-ia de uma obra única e inavaliável. Mais que isso: teria que se corresponder com o impalpável e sobre-humano.
Já que preciso dar contornos ao seu cheiro, tentando transmitir o que imagino, terei que estabelecer algumas relações. Imediatamente penso em Opium, de YSL. O cheiro da canela, envolvendo o jasmim, confere à fragrância ares de nobreza antiga, o que cairia muito bem a essa nossa simulação.
Mas preciso de algo mais: algo que, além de aprisionar o tempo num frasco e revelar toda a nobreza de outrora, possa também revelar a magia de um perfume e seu poder de embelezar e tornar imortal e pulsante o espírito a quem foi destinado. Este é Éden, de Cacharrel - um elixir que parece concentrar todas as primaveras, desde a criação, a emanar flores cálidas e embebedadas pelos ecos do tempo. Éden não é só uma alusão ao paraíso: é a memória da beleza.
Não proponho aqui o resultado da mistura dessas duas maravilhas até agora citadas, mas algo que pudesse relevar as poéticas  impressões dessas fragrâncias tão distintas e tão significativas. De qualquer forma, o que predomina em minha imaginação é o acento oriental da fragrância. As especiarias, o aroma da baunilha em comunhão com as madeiras, as resinas, como a mirra e o láudano, arrematando os odores florais, dão ao perfume a suntuosidade necessária para que possa ser digno de um rei ou de uma rainha.
Outro efeito interessante é o incenso. Fragrâncias de base incensada carregam em si o sagrado e o profano. Há algo de misterioso e etéreo nessas composições.
Entre as obras em que figuram tais resinas ou, em outras, os mágicos incensos, estão  Roma, de Laura Biagiotti; Le Baiser du Dragon, de Cartier; o descontinuado Triumph, de O Boticário; Al-Rehab De Luxe; Arabian Nights, de J Del Pozzo, entre tantos outros...
Se pudéssemos colocar o que há de mais encantador, de cada um desses perfumes, num mesmo frasco, certamente teríamos um perfume digno de um faraó, pronto para perfumar o humano ao encontro do divino.
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Confiram as postagens dos meus amigos blogueiros, tratando do mesmo tema:
Village Beauté
Le Mond est Beau
Parfums et Poésie
Parfumée
Perfume Bighouse
Templo dos Perfumes
Perfumart
A Louca dos Perfumes



20 comentários :

  1. Fantástica viagem olfativa, Chris. Opium pour femme edp também me veio à memória diante do tema... fiquei agora tentada a fazer o que não recomendaste: usar Eden e Opium ao mesmo tempo - o que ocorrerá? Vou testar agora mesmo... Ah se pudéssemos viajar no tempo.... que delícia sentir estes ricos cheiros, tão melhores que os sucos engarrafados de hoje.

    bjs

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    1. kkkkkkk... Jura que vai testar? Meu Deus! O que será que vai dar isso?

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    2. vou sim rsrsr
      venho aqui te contar !

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  2. Que linda sua citação: 'aprisionar o tempo num frasco'...! E que intenso e divino seria o aroma resultante da mistura desses portentos citados! Adorei seu post!

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    1. Verdade, Diana!!! Assim como no livro O Perfume, combinando essências virginais, imagine se pudéssemos de fato combinar o que mais nos agrada ou instiga em cada perfume...

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  3. Oi Cris, acredito que nessa mesa redonda todos nós tivemos um ponto em comum: o incenso! Não consegui dissociar esse elemento, como você mesmo definiu: sagrado e profano. Que faraós perfumados imaginamos, não? Beijos!

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    1. É impossível não pensar no incenso, né, Pri?! Aquele cheiro de madeira e de incenso, carregado de ecos e memórias... E os farós (rsrsrs)...

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  4. Que post perfeito, Cris!! Estou encantada, você conseguiu ser perfeito! Isso tanto no texto impecável, como não poderia deixar de ser, quanto nas escolhas e menções a perfumes de fato com auras nobres. Adorei também as ilustrações, tudo primoroso!
    E você falou em "Hatasu"...Como eu amo esse personagem!! Acabei por fazer meu texto baseado na Cleópatra mas o tempo todo lembrando dela.
    Bjus
    Li

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    1. Li, que bom que gostou! Embora bem pequeno, acho que consegui dizer o essencial, né?!

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    2. Cris, o tamanho do texto é o menos importante, aliás, são os melhores pra ler. O que importa sempre é o conteúdo. A síntese é uma arte.
      Bjus
      Li

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  5. E vamos de incenso, porque é o que o Egito nos reserva!

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  6. "...um elixir que parece concentrar todas as primaveras, desde a criação, a emanar flores cálidas e embebedadas pelos ecos do tempo. Éden não é só uma alusão ao paraíso: é a memória da beleza." Belíssimo o que você escreveu, bravo! Todo texto é lindo, mas essa parte me tocou. Quando pensei no Egito me veio à mente milhares de nenúfares das águas do Nilo, e tuberosas, e o cheiro da água do rio, e o calor do deserto e as tempestades de areia... Uma mistura de L'eau D'Issey pour femme, Dune e Samsara... Como seria?

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    1. Nossa, Yvan! Como seria?
      Dune com L'eau D'Issey... hummmm... Tenho os dois aqui... só me falta o Samsara...
      Adoro suas ideias (rsrsrsr)!

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    2. Mistura esses dois e me diz como ficou! Acho que vai dar certo.
      Abração,
      Yvan.

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    3. Também fique espantada com essa descrição do Eden. Lindíssima e merecida!!

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  7. Oi Cris, delícia de texto e fotos também, um primor. Uma viagem no tempo e no seus mistérios, rsrs. Deve ter sido criado perfumes muito raros na época, até mesmo por não ter todo o aparato para fabricá-los, deviam ser feitos com todo o zelo e cuidado, e com certeza levar um certo tempo para que pudéssem apreciar seu aroma, como o descansar de um queijo, creio eu.

    Dentro os citados, que bomba tu provacas, misturar Eden e Opium??? Se os tivesse aqui, experimentaria.....vamos aguardar a Dâmaris vê se ela conseguiu essa faceta!

    Tenho o Roma....vou dar uma atenção especial à ele....fechar meus olhos e viajar no paraíso dos aromas de antigamente, rsrs.

    Um beijo querido
    Malú

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    1. Malú, se tens o Roma, tens uma riqueza nas mãos. É uma obra-de-arte esse perfume...
      Obrigado pelo comentário e pela presença, mais uma vez!

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    2. Sou LOUCA pelo Roma...
      Tenho só uma mini...queria mais...

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  8. Cris, incenso é praticamente um carimbo oriental. Não há como dissociar da imagem misteriosa e irresistível do oriente.Imagine encontrar o perfume da rainha Hatshepsut ... seria o máximo abrir este frasquinho.Beijocas de Elisabeth

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